sexta-feira

Sons.

"Podia ser uma definição do amor, a de Flaubert: a curiosidade. [...] Conhecer o outro, co-naître, nascer com ele, é esse o único projecto. A frase mais afastada do amor, não seria "odeio-te", mas sim "não quero saber".

Laurens, C. - L'Amour, roman
[...]
[...]

terça-feira

E (des)necessidade.
Há coisas a que não consigo encontrar sentido lendo-as nos blogues e, menos ainda, nas respectivas caixas de comentários. [ ... ]. Vou atirar-me ao Monod e deleitar-me com a certificação do óbvio através do desafio epistemológico encerrado nesta "pérola": o improvável é possível.
**
Receita para "fazer um poema dadaísta" (Tristan Tzara, 1920):
"Pegue um jornal. Pegue a tesoura. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema. Recorte o artigo. Recorte em seguida com cuidado algumas palavras que formam o artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Tire em seguida cada pedaço um após o outro mantendo a ordem em que eles saíram do saco. Copie conscienciosamente. O poema se parecerá com você. E aí está você, um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade encantadora, ainda que incompreendido pelas pessoas vulgares".

segunda-feira

Ora, pois ou vice-versa.

"Agustina Bessa-Luís, num texto para Eugénio de Andrade: Nunca trocámos cartas porque essa débil força de confidência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. [P.M.] "

"Nunca deixámos que as palavras", in Fora do Mundo (1/19/2005)
ton sur ton (ou dá-me música, pª AJ)
.
1. exercício de respiração: o que aprecio quem tem certezas! bem, mas... e agora? sendo Agustina a minha sibila preciso de descortinar um destino a dar à "tosta mista"

2. exercício de equilíbrio: a Agustina diz que quem se leva a sério morre todos os dias um bocadinho. gosto muito dela e não quero vê-la morrer. não vou levá-la a sério

3. exercício de alongamento: ta-ra raran taran tara-rara-raran turu ruru ru... não parece porque poupei no solfejo mas é o tema da Pink Panther por Henri Mancini
.
3.1. sax tenor e piano

3.2. letra

Think of all the animals you've ever heard about / like rhinoc'ruses and tigers cats and mink / There are lots of funny animals in all this world / But have you ever seen a panther that is pink? // Think! // A panther that is positively pink, // Well here he is, the pink panther, / The rinky-dink panther, / Isn't he a panther ever so pink? // He really is a groovy cat, / and what a gentleman, a scholar, what an acrobat! // He's in the pink - the pink panther / The rinky-dink panther, / and it's as plain as your nose, / that he's the one and only, truly original, / Panther-pink (panther) from head to toes!

3.3. "ele", o único, o próprio

domingo

astro-mariquices.
[nota: momentos como este, do mais fino recorte de racionalidade científica, são genuíno hedonismo]
saraband
.
"nunca disse "amo-te" mas tudo aquilo que fazia eram actos de amor"
Em nome de Hölderlin.
Não me recordo de como o descobri, ter-se-á passado bastante tempo. De início pareceu-me um tanto perdido e superficial se bem que promissor. Dei atenção aos radares e fico feliz por tê-lo visto tornar-se numa leitura obrigatória e "num blogue de excelência".

quinta-feira

matters of the heart, 'cause heart matters

1. uma curva ECG reflecte a perspectiva do eléctrodo que a regista. 2. a normal condução eléctrica no coração permite que o impulso gerado pelo nódulo sino-auricular seja propague ao músculo cardíaco e o estimule. quando o miocárdio é estimulado, contrai-se. é a estimulação ordenada do miocárdio que permite a contracção eficiente do coração, permitindo deste modo que o sangue seja bombeado para o corpo

terça-feira

b & w.

Snow White was nude at her wedding, she's so white / the gown seemed to disappear when she put it on. // Put me beside her and the proximity is good / for a study of chiaroscuro, not much else. // Her name aggravates me most, as if I need to be told / what's white and what isn't. // Judging strictly by appearance there's a future for me / forever at her heels, a shadow's constant worship. // Is it fair for me to live that way, unable / to get off the ground? // Turning the tables isn't fair unless they keep turning. / Then there's the danger of Russian roulette // and my disadvantage: nothing falls from the sky / to name me. // I am the empty space where the tooth was, that my tongue / rushes to fill because I can't stand vacancies. // And it's not enough. The penis just fills another / gap. And it's not enough. // When you look at me, / know that more than white is missing.

Thylias Moss - 'Lessons from a Mirror', in Pyramid of Bone

segunda-feira

2-i-lite-z1

lá fora, contra a limpidez fria do azul, o branco adoçado dos cálices-de-Vénus traz-me o som da Lakme (as camélias serão sempre, por amor, da Traviata) e, por segundos, diria que me sopram a franja como sempre gostei de fazer aos gatos. nã, não deve ser... porque isso far-me-ia franzir o nariz, semicerrar os olhos e arquear as omoplatas como eles o fazem
(pois, bem sei que há mais mas basta de detalhes ou sai disparate)

domingo

um dilema
"embora a virgem possa ser prostituída, nunca poderá ser feita adúltera"
Virgem de Antioquia, in L. A.
as asas de Isadora
se o corpo pede sexo e sexo e sexo e amor e segurança e conforto, a mente pede liberdade e independência e o poder de trabalhar e de escrever

[credo, parece a tradução de uma recensão de um dos romances da Erica Jong]

sábado

The gambler. (*)

On a warm summer’s evenin’ on a train bound for nowhere, / I met up with the gambler; we were both too tired to sleep. / So we took turns a starin’ out the window at the darkness’ / til boredom overtook us, and he began to speak. / He said, son, I’ve made a life out of readin’ people’s faces, / And knowin’ what their cards were by the way they held their eyes. / So if you don’t mind my sayin’, I can see you’re out of aces. / For a taste of your whiskey I’ll give you some advice. / So I handed him my bottle and he drank down my last swallow. / Then he bummed a cigarette and asked me for a light. / And the night got deathly quiet, and his face lost all expression. / Said, if you’re gonna play the game, boy, ya gotta learn to play it right. / You got to know when to hold ’em, know when to fold ’em, / Know when to walk away and know when to run. / You never count your money when you’re sittin’ at the table. / There’ll be time enough for countin’ when the dealin’s done. / Now ev’ry gambler knows that the secret to survivin’ / Is knowin’ what to throw away and knowing what to keep.’ / cause ev’ry hand’s a winner and ev’ry hand’s a loser, / And the best that you can hope for is to die in your sleep. / So when he’d finished speakin’, he turned back towards the window, / Crushed out his cigarette and faded off to sleep. / And somewhere in the darkness the gambler, he broke even. / But in his final words I found an ace that I could keep. / You got to know when to hold ’em, know when to fold ’em, / Know when to walk away and know when to run. / You never count your money when you’re sittin’ at the table. / There’ll be time enough for countin’ when the dealin’s done. / You got to know when to hold ’em, know when to fold ’em, / Know when to walk away and know when to run. / You never count you r money when you’re sittin’ at the table. / There’ll be time enough for countin’ when the dealin’s done.

(*) Kenny Rogers

sexta-feira

O silêncio.

(a propósito de uma liga com rosas de sangue)

Não sei dizer das palavras que estrangulo senão que hei-de aprender a viver com elas encerradas para que se tornem um colo e duas mãos até que o corpo e a alma se me apaguem.

quinta-feira

memorabilia
.
[...]
Close the window calm the light
And it will be alright
No need to bother now
Let it out let it all begin
Learn how to pretend

Once a story's told
It can't help but grow old
Roses do lovers too
So cast your seasons to the wind
And hold me dear oh hold me dear
[...]
.
Rita Coolidge - We're All Alone (algures num long-play em vinyl, anos 80)

domingo

"Escrever como se ninguém lesse. Escrever sabendo que alguém sempre lê." [P.M.]
.
'Ética bloguista', in Fora do Mundo (1/6/2005)
.
*
"Desconheço a ordem do que procuro".
.
Filipa de Melo - Este é o meu corpo (pg. 91)

sábado

"Prendre" et "donner", c'est là au sein de l'érotique une catégorie extraordinairement grossière et bien peu pertinente.

Georg Simmel - Philosophie de l'amour (pg. 246)
pasto e restolho.

quinta-feira

coincidências

- correu bem o teu after-dinner de ontem?
- doce como os chocolates com o mesmo nome...
- ah, foste sair com a Lady Godiva? e ela levava o cavalo sem sela?
- estás muito espirituosa... quem fez de cavalo fui eu
- hmmm... essa versão alternativa à selenita lady nua parece-me bem
- é como me ensinaste: o que conta é aquilo em que queremos acreditar, não?
- sim, claro! acredito que sou a Maureen O'Hara

quarta-feira

O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.
Maria Gabriela Llansol - Lisboaleipzig 2 (1994-1995)
Um fracasso #1

terça-feira

um exercício de rigor

à luz crua de brancos, numa manhã demasiado fria, em frente a um telescópio inútil na cúpula de um palácio vazio e durante uma conversa sobre as peculiaridades das estrelas-gémeas: estou-me "nas tintas" para as rotações mútuas, para a fusão nuclear ou para o desvio no vermelho, apenas uma ideia me ocupa de momento: reter até ao limite do suportável a palavra "desculpa"

quinta-feira

Axiomática da dúvida.

Quando duas pessoas precisam de falar sobre a sua relação é porque nunca existiu ou já não existe?

quarta-feira

2-i-lite-z1

em frente a "A Casa de Celestina" pareceu-me escutar, bem próximo: "Se eu fosse um dia o teu olhar, / E tu as minhas mãos também, / Se eu fosse um dia o respirar / E tu perfume de ninguém."

[por esta vez não era o telefone, confirmei]
*
Confissões e (cor)relações #2

(Ou é desta que inscrevo o Galatea na blogaysfera #2)

Confesso que a temática da infidelidade vista à luz das explicações e interpretações masculinas sempre me fascinou. Um dos mais brilhantes e esclarecedores exemplos encontrei-o recentemente num blog de que lamento ter completamente perdido o endereço até porque se tratava de uma escrita com pretensões várias de seriedade e cientificidade o que, se o não tornava memorável, o tornava, pelo menos, hilariantemente digno de dó. Sinteticamente o seu autor dizia: o homem é infiel para manter o casamento, é uma questão de arejar, enquanto a mulher é infiel para deixar o casamento, é uma questão de mudar. Antes de mais convém saber que as generalizações são muito arriscadas sobretudo quando o único exemplo de que se dispõe é o próprio como era, claramente, o caso do senhor. Em todo o caso, quis muito ter podido dar-lhe uma amigável palmadita nas costas e deixar-lhe esta frase solidária: "meu amigo, não desespere! um dia há-de conhecer uma mulher".

segunda-feira

Confissões e (cor)relações #1

(Ou é desta que inscrevo o Galatea na blogaysfera #1)

Confesso que me tem intrigado a expressão: "o pênis flácido de Hemingway esmagou Clarice Lispector ao lhe cair na literária e pomposa cabeça" ("Good Lord, escrita feminina", in Alexandre Soares Silva, 5 Dezº 2004). Não tanto por causa de Clarice (que não sendo grande escritora também não terá nunca enfrentado o problema da flacidez do pénis) mas porque não consigo encontrar qualquer correlação positiva entre flacidez peniana e qualidade de prosa. Mas se há, oh meu caro Alexandre, pouco mais me restará que dar-lhe os parabéns por escrever tão bem! E tem tanta razão quando fala de uma certa escrita feminina cheia de tadinhices pegajosas e de dilúvios de lágrimas fáceis ao som da MPB. Mas (é este o problema das adversativas) quando essa onda de escrita é desenvolvida por homens (e fica subentendido que os que assim escrevem sofrerão de rigidez peniana, não é?) o que sobra de patético não será susceptível de adequada descrição em outra forma que não extensas e elaboradas teses de doutoramento. É, afinal, tudo uma questão de dimensão. Ou, para ser mais precisa, de tónus.

domingo

O swing.

Quem ousará esquecer Danny Kaye e Vera-Ellen?

"The best things / Happen while you're dancing / Things that you would not do at home / Come naturally on the floor // For dancing / Soon becomes romancing / When you hold a girl in your arms / That you've never held before // Even guys with two left feet / Come out all right if the girl is sweet / If by chance their cheeks should meet / While dancing // Proving that the best things happen when you dance."

Irving Berlin - The Best Things Happen While You're Dancing (1954, banda sonora do filme White Christmas)

terça-feira

a noite mais longa

os sons do barroco com o cenário natural de um espelho líquido a verde-e-negro

sábado

uma ideia:
"todos nascemos loucos. alguns de nós continuam a sê-lo" - Samuel Beckett, in À espera de Godot
e um rato escondido:
lsb.net.KPNQwest.pt é o retrato do mais fiel, logo a seguir a nato.shape.into e a interbusiness.it, dos leitores deste blog. nunca em simultâneo com os outros, diga-se, mas tal como eles acedendo sempre através da mesma string de pesquisa. não estou certa do valor a atribuir a esta constância mas estou-o da fidelidade, o que quer que isso seja

sexta-feira

"Nada te turbe;
nada te espante;
Todo se pasa;
Dios no se muda;
la pacïencia
todo lo alcanza.
[...]"

Santa Teresa de Ávila - Oración

quinta-feira

aqui.

Summertime (E. Hopper 1943). Óleo s/ tela. Delaware Art Museum

quarta-feira

Os mecanismos.

Deve haver qualquer conflito entre as portas das relações humanas e eu: custa-me horrores abri-las e entalo-me ao fechá-las.

segunda-feira

quem? eu???




Que prostituta cinematográfica é você?
a ver se nos entendemos, sim? "você" é estrebaria, ora essa... ah, o resto? pois...

domingo

As lágrimas.
"She's a cold hearted bitch, believe me!", voltavas a repetir e tudo quanto me restava era perguntar-te: "Qual é a tua quota de responsabilidade nisso?"
um gato de pêlo negro e de olhos verdes

Black cat, black cat, smiles and lies, / hiding behind your black cat eyes. / Sneaking glances and proud prances, / ears erect, you are foolishly wise. / Black cat, black cat, tail a twitch, / you snap it like a long black switch. / Indifferent poses and upturned noses, / nails kneading, you are a witch. / Black cat, black cat, treacherous grin, / Jumping, prowling, you go for a spin. / Tensely tiffed and mildly miffed, / niftly napping, you always win. / Black cat, black cat, calling meow, / I can pet you when you allow. / Pleasantly purring, just barely stirring, / nuzzling nearer, I'll forgive you somehow.

Franz, L. - Enigma

sábado

O entusiasmo, o afecto e a expectativa.

(Ou porque é necessário "viver em várias frentes")

"O entusiasmo pela vida, pelas pessoas, gostar de viver, gostar das pessoas é a principal condição da saúde mental. "

António Coimbra de Matos, psiquiatra, em entrevista a Carlos Vaz Marques

sexta-feira

"funções e assim"

é verdade que gosto mais de mulheres do que de homens, é um facto incontestável confirmado por "El amante lesbiano", do economista espanhol José Luis Sampedro, ser um dos meus livros de estimação, que recomendo vivamente a todos os homens que conheço. e com isto não digo que desdenhe um colo de homem, bem pelo contrário! em abstracto, e desejavelmente ainda mais em concreto, um colo de homem só vale a pena se fôr multifuncional como os canivetes suíços (aqui devia mesmo ter escrito sofás e só o não faço porque 'alguém' poderia pensar que este blog é "uma linha especial de valor acrescentado" quando, com efeito, não tem valor nenhum). nada de especial, como se pode constatar, está implícito nesta definição que só demonstra quão pouco exigente sou! mas (e palavrinha que este "mas" não é por me ter lembrado daquelas intermináveis noitadas de votações lá na faculdade, em pleno PREC, quando os meninos e as meninas da UEC repetiam até à exaustão "sim, mas"), tal como nos canivetes, às vezes não há necessidade, nem sequer capacidade, de lhes utilizar tantas funções em simultâneo e, bem vistas as coisas, até pode atrapalhar um bocado ter de lidar com as peçazinhas todas no caso dos mais complicados; é apenas por esse motivo que, e com base no mais elementar bom senso, pode dar muito mais jeito ter à mão (em todos os casos em que se reconheça a necessidade de uso frequente) um dos mais básicos e aligeirados, só com duas ou três funções
[homem-objecto??? ai que injúria!!! como se pudesse uma coisa dessas passar-me pela ideia]

quarta-feira

em nome do prazer

mais erótico que um bom par de neurónios? não sei. o resto? sexo, apenas e apesar de

terça-feira

o melhor de um dia

andar pelas ruas com Sena a lembrar-me "diz-me devagar coisa nenhuma". ao final da manhã, ouvir a tua voz desfiar trivialidades. sussurrar, abrigada na certeza de que me não escutarias, beijo-te devagarinho, como só a alma o sabe fazer

segunda-feira

domingo

Pela madrugada.

Rivette poderia ter feito melhor da "Histoire de Marie et Julien", para tanto bastaria ter eliminado as cenas dos últimos cinco minutos, as mesmas que me levaram a concluir com inevitável ironia: "e Marie ressuscitou à 3ª lágrima". Pela noite fora, no rádio do carro, a Antena 1 trazia uma curiosidade correlacionável: "Eu não me esqueci / de me esquecer de ti", dos DRSax.

sábado



*
a matter of 'course'.

(or the adventures of a poor plagiarist in lost paradises)


Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. My words echo
Thus, in your mind. [...]

T.S. Eliot - "Nº 1: Burnt Norton", in Four Quartets

[btw: Confieso que he vivido was written by Pablo Neruda, a Nobel Prize winner in 1971]

sexta-feira

a redacção

mal ensaio o alinhavo de umas linhas e sinto o peso de já não me pedirem para fazer redacções; consolo-me (não, nada disso! é mesmo como vou explicar a seguir) explicando a mim mesma que não tenho idade para essas coisas e que há quem ainda esteja na fase de as fazer para mostrar trabalho de casa e ganhar um chupa-chupa de prémio (ok, ok, é ingenuidade minha, e depois?). hoje li uma redacção de ontem; não estava fora de prazo por isso (não me fez azia mas sono) e era muito bonita, bem escrita; apesar de me não ter dado nenhuma indicação nova sobre o estado de saúde mental de quem a escreveu (é o do costume) ou sobre o equilíbrio fito-sanitário da dita (até porque sou muito dada aos vegetais, já se vê) fiquei a pensar se um dia (quem sabe?!) serei capaz de fazer uma redacção envolvendo a lógica das courgettes na esperança de uma parecença com um conto da Anaïs Nin
[a "abóbora-cinderela" lá se vai arrastando ao ritmo das mitomanias mas anda uns dias - ou será umas noites? - atrasada, coitadita... será da passada ou do passado?]

quinta-feira

Dar e receber.
'tou nem aí!

pode bem ser por estar a chover mas atacou-me forte a crise de kitsch. no rádio do carro, uma voz feminina - descubro depois que se chama Luka - canta uma vulgaridade e dou comigo a trauteá-la parcialmente como se, assim e sem mais trabalho, respondesse a alguém
de mãos atadas / de pés descalços / com você meu mundo / andava de pernas pro ar! (pormenores, não?) / sempre armada / segui seus passos / até em seus braços / pra você não me abandonar (blarghhh) / já nem lembro seu nome / seu telefone eu fiz questão de apagar! (mera economia de esforço) / acertei os meus erros / mirrei / inventei e virei a página / agora eu tô em outra... (ufah!!!) / boca fechada / sem embaraços / eu te dei todas as chances / de ser um bom rapaz! (ou boa menina, 'tá!) / mas convencida pelo cansaço / nosso amor (tss tss...) foi enterrado e descansa em paz! (salvé...) / tou nem aí / [...] pode ficar com seu "um dia", eu não tô nem aí / [...] / não vem falar dos seus problemas / que eu não vou ouvir! (o botão está em off há muito, compreendes?)
[crise de repetição? nã... genuína falta de paciência para tretas de andropáusicos e de zen's de subúrbio]

quarta-feira

um post-it endereçado

(ou das polaridades, segundo Simmel)

a moralidade é, tal como o amor, um compromisso da alma

terça-feira

E uma boa notícia.
.
[...]
Gosto destes jogos em que já se sabe quem
vai ganhar. Eu ou tu?, qual das peças
avançará primeiro? Pouco importa, no fundo. A
minha dúvida nasce da tua certeza, como a
resposta que me dás é esta dúvida que te devolvo.
.
Nuno Júdice - O jogo das interrogações
.
*
.
Por dentro.

Ziguezagueio a velocidades de risco entre os carros que comigo partilham hoje as estradas e as ruas, faço ponto-de-cruz com os que entram ou quando saio de ruas muito movimentadas pelo puro prazer do risco. De vez em quando, espreito a contra-gosto o retrovisor e vejo um novo sinal na minha cara, ainda róseo e plano de infância, mas cuja maturidade sei antecipar desde que há pouco mais de um ano a palavra por que o chamo passou a integrar os meus dias. Tuteio uma palavra nova, outra ainda, no meu vocabulário usual como para lhe perder o medo, relembro as palavras novas que os médicos me têm ensinado a associar-lhe e acredito, de todo o coração porque preciso dessa paz, que mais logo alguém me dirá que leucemia não é o nome do meu próximo fantasma.

segunda-feira

Das despedidas.

Há uma palavra que só uso uma vez na vida para com cada pessoa pelo que, para mim, significa de irreversibilidade: a palavra "adeus". Ciente do seu valor, mais do que uma palavra é uma decisão terminal, raramente a usei na vida pelo que se há quem não acredite na simplicidade deste princípio, que levo a cabo com rigor matemático, há ainda quem prefira deixar-se enganar pela indiferença social que se segue ao seu uso.

domingo

sexta-feira

os meus flamengos



um dia, van Gogh foi jovem em casa de Mauve

quarta-feira

alfama aos meus olhos

ontem, ao terminar um quadro, lembrei-me que



até pq a kiss is not only a kiss :p

terça-feira

Heitor a Ulisses:
- não haverá guerra em Tróia porque Andrómaca tem o mesmo bater de pálpebras que Penélope
*
La "the nana"
C'est dans la voix et dans le geste / C'est "tha nana" avec un zeste / Quant à la jupe à ras l'bonbon / C'est pas compliqué mais c'est bon / Que ça vous mate ou qu'ça vous touche / C'est l'eau courante au fond d'la bouche / Et quand ça vous r'file un' galoche / Tu joues complet dans ton cinoche / C'est dans la taille et dans le faste / C'est "the nana" et puis c'est baste / Quant à chômer devant son cul / Les chômeurs ça court pas les rues / Que ça se traine ou qu'ça s'trimballe / Au septième ciel tu fais tes malles / Et tu lui red'mand's un ticket / Pour t'emballer au bout du quai / C'est du jasmin sous un' guenille / Du cousu main en espadrilles / C'est un' prison dans sa bastille / C'est du vison en haut des quilles / Quand ça t'emballe au bout d'la rue / Ça t'fait marron et ça t'lâche plus / Quand ça vient lire au fond du paje / T'as même plus l'temps d'tourner les pages / C'est des baisers, c'est des caresses / A t'défoncer le tiroir-caisse / C'est d'la panthère qu'on t'sert en tasse / Faut laisser faire et puis ça passe / C'est comme un ange qu'aurait pas d'ailes / C'est un jouet au bout d'une ficelle / C'est un chagrin qui va tout nu / C'est un cri perdu dans la rue / C'est dans la voix et dans le geste / C'est "the nana" avec un zeste / Quant à la jupe à ras l'bonbon / C'est pas qu'c'est gagné... mais c'est bon...

La "the nana" - Léo Ferré

segunda-feira

Um recado em português.
Todas as coisas têm, apenas, o valor que lhes atribuímos. Tal como as pessoas, de resto.

sábado

Acaso.
"[...] Tão semelhantes a isto - ferro em brasa de nossas almas-,/ Em ti, nós encontramos um lugar de repouso;/ Tão semelhantes a isto - nós descemos ao abismo das vagas,/ Alvoroçados na alegria muda;/ Então, quando vem a hora,/ Tirados do sono, cheios de um orgulho nobre e novo,/ Nós voltamos a entrar - iguais das estrelas-,/ Na brevíssima noite da vida."

Friedrich Hölderlin - Diotima (Colares Editora)

quarta-feira

"O último travelling"
Lx, 14 de Junho de 2004.

segunda-feira

obrigada, "Esperando o tal Godot, ou isso". também gosto muito de o ler, sabe? e até creio que perceberá por que motivo. às vezes tenho saudades de uma a. que aqui escreveu entre Agosto de 2003 e Maio de 2004, a pessoa a cuja escrita se refere no seu post, mas resta-me a esperança de saber que as palavras que habitaram este espaço durante aquele período se encontram agora nas mãos de alguém que me parece saber preservar os passados e, assim, talvez me possa ajudar a proteger os futuros

domingo

Toutes deux regardaient s'enfuir les hirondelles:
L'une pâle aux cheveux de jais, et l'autre blonde
Et rose, et leurs peignoirs légers de vieille blonde
Vaguement serpentaient, nuages, autour d'elles.

Et toutes deux, avec des langueurs d'asphodèles,
Tandis qu'au ciel montait la lune molle et ronde,
Savouraient à longs traits l'émotion profonde
Du soir et le bonheur triste des coeurs fidèles.

Telles, leurs bras pressant, moites, leurs tailles souples,
Couple étrange qui prend pitié des autres couples,
Telles, sur le balcon, rêvaient les jeunes femmes.

Derrière elles, au fond du retrait riche et sombre,
Emphatique comme un trône de mélodrame
Et plein d'odeurs, le Lit, défait, s'ouvrait dans l'ombre.


Paul Verlaine, I. Sur le balcon (1889)

segunda-feira

"U-topia"

Aimer c'est donner ce qu'on a pas a quelqu'un qui n'en a pas besoin.

Jacques Lacan (in "Fora do Mundo", 10/17/2004).

sábado

corolário

"os amantes nunca foram, não são, nem serão os amados" [P. Quignard]

segunda-feira

'true colors', em fragmentos de um som que julgava esquecido. hoje em passeio dentro de mim com a irreverência despudorada de um prazer. porque, afinal, 'girls just wanna have fun'

You with the sad eyes,
Don't be discouraged though I realize,
It's hard to take courage,
In a world full of people you can lose sight of it all,
And the darkness inside you makes you feel so small.

[But I see your true colours shining through,
...
So don't be afraid to let them show

your true colours are beautiful like a rainbow.]

Show me you smiling,
Don't be unhappy can't remember when I,
Last saw you laughing,
if this one makes you crazy and you've taken all you can get,
You call me up because you know I'll be there.

[...
So don't be afraid to let them show your true colours,
Ya true colours are beautiful like a rainbow.]

[True Colors - Cindy Lauper]

terça-feira

Nota final

Le temía a tu cuerpo
no al alma sin réplica
y rocío
que usabas como ropa de dormir.

A la lava sin rumbo
que desbordaba la sábana
y quemaba las flores
nunca al dibujo de tus ojos

que de repente pedía
compasión o cariño.

Fue tu follaje exterior
impredecible, desbocado, coral
y fueron las erupciones que adiviné
los estremecimientos
y la densidad del polvo que te hizo
lo que produjo mi estampida.

Me fui porque en ti triunfa
un animal espléndido
y yo era un hombre enamorado
sin corazón de domador de circo.

[Raúl Rivero, Verão - 2003 ]

quarta-feira

O "pudorzinho".
Em memória de uma 'que-se-quer-senhora' por um dia me ter falado de pudor a propósito do que desconhece.
Todos os imbecis da Burguesia que pronunciam incessantemente as palavras: imoral, imoralidade, moralidade na arte e outros disparates fazem-me pensar em Louise Villedieu, puta de cinco francos, que, acompanhando-me uma vez ao Louvre, onde ela nunca fora, se pôs a corar, a esconder a cara, e, puxando-me a todos os instantes pela manga, perguntava-me em frente das estátuas e dos quadros imortais como se podia exibir publicamente semelhantes indecências.
(Ch. Baudelaire, LXXXIV, Mon Coeur Mis à Nu)

quinta-feira

quarta-feira

oh filha! lá estás tu com delicadezas!!!
[...]

sábado

e só para variar da ladaínha da "rainha-morta-tadinha-altiva"
(aquela que escreve a preto não se enxerga, és muito boa és, se fazes o teste dos bichos dá-te mas é peixe morto e congelado...) vou passar a dedicar o melhor da minha atenção à "caras-blogosférica-lux-à-esquerda" que é como quem diz à colectânea de blogues que contam as vidinhas todas, as prainhas a que vão (Cancun, Puerto não-sei-quê, etc etc parecem-me sempre sítios tão chiques e inatingíveis, santa!), as barriguinhas das meninas prenhas, os nomezinhos das crias a nascer ou já nascidas, os copozinhos-de-água muito "inteligentzia" (ora, intelectual que se preze é de esquerda, ou não?). enfim, esses passarão a ser, doravante (adoro esta palavrinha antiga...), os meus livros (digo, blogues) "de revelação" sempre à cabeceira (no caso: do desktop), substituindo os démodés Lewis Carroll e Anaïs Nin (nomes fictícios). ah, e por falar em revelações, como é óbvio também sempre sonhei em vir a ser gueixa mas só agora me sinto esclarecida