terça-feira

O material de escrita.

Nas modernas, civilizadas e inteligentes rollerpoint da Rotring encontro os mais fiáveis, porque rigorosos e leais mas nunca agrestes, objectos com que escrevo. À imagem das antigas canetas de tinta permanente cujo aparo "abre as pernas" à mínima pressão, conseguindo dessa forma tornar, sobretudo quando o papel se mostra pobre em consistência pela pobreza ou má articulação das fibras, numa obscena e irrecuperável mancha a mais cuidada das tarefas, associo sempre a solicitude bajuladora com que o previsível mata-borrão cumpre o seu destino de copista-correio-de-manchas.
Pelo dia 3 de Agosto de 2003.

L' allumette

Le feu faisait un corps à l'allumette.
Un corps vivant, avec ses gestes,
son exaltation, sa courte histoire.
Les gaz émanés d'elle flambaient,
lui donnaient ailes et robes, un corps même:
une forme mouvante, émouvante.

Ce fut rapide.

La tête seulement a pouvoir de s'enflammer, au
contact d'une réalité dure,
-- et l'on entend alors comme le pistolet du starter.
Mais, dès qu'elle a pris,
la flamme
-- en ligne droite, vite et la voile penchée comme un
bateau de régate --
parcourt le petit bout de bois,

Qu'à peine a-t-elle viré de bord
finalement elle laisse
aussi noir qu'un curé.

Francis Ponge (Pléiade, p. 457 - Gallimard)

"Eureka"! Ou o erro na "agenda".

Hoje descobri mais um motivo, além das reportagens sobre o PM e as suas PMettes, para comprar a Lux neste Verão: traz peças do "faqueiro da minha vida" (é o que diz a publicidade...). Está aberta a silly season ou o PM passa a comer-se com garfo e faca da Cutipol?

sábado

Ajuizar as pessoas é, como sabemos, um equilibrismo entre o coração e a vontade. Se nos inclinamos muito para um dos lados caímos. E pode ser muito mau se trazíamos alguém pela mão. Mas geralmente (Deus ?) proporciona uma rede. Temos é de querer olhar para ela para acertarmos.

quarta-feira

A sombra da dignidade. (Ou as causas das coisas)

A contabilidade afectiva é o mais triste e o mais redutor dos sinais da efectiva dimensão do que une duas pessoas. (Galatea, Março 2004)

[...]

Usando as palavras de uma amante elitista, "um amigo é para a vida, um amante ocasional" vale a pena pensar-se em "ser bem mais exigente com os amigos do que com os amantes" porque, se calhar, como se diz em Terras do Nunca (No hay forma de emborracharle), para alguns "as coincidências são o que são. Umas indiscretas - aparecem quando menos se espera."

segunda-feira

Duas semanas. E mais uma depois.

A arte de adiar

Às vezes os problemas existenciais são tão pertinentes que é preciso deixá-los em paz. Às vezes as questões escondidas em aspectos do dia-a-dia são tão importantes que é preciso deixá-las em paz. Porque nem sempre se pode resolver alguma coisa, porque nem sempre se pode alterar o curso das coisas. Porque uns dias não temos capacidade de análise ou modificação da direcção que levamos e, portanto, é preciso viver o momento naquilo que não tem de futuro... Porque é bom abraçar o que há para não se sentir o vazio do abraço no ar. Porque é bom sentir o acabado, o encontrado e o achado ainda antes de tudo questionar.

"xaputa" @ 9:43 PM, em 25/5/2004

Citação não sujeita a autorização prévia pelo autor por inexistência de elementos de contacto explícitos.
A gratidão.

Era uma ovelhinha tão terna que, de cada vez que o pastor lhe dava a ração, fazia questão de agradecer dormindo na cama dele.

Adeus.
Nove meses.


sexta-feira

A cada sopro do vento
muda de folha
a borboleta no salgueiro

A uma papoila
deixa as asas a borboleta
como recordação

Matsuo Bashô - O gosto solitário do orvalho

sábado

A tristeza é, tal como a ferrugem que se esboroa em nosso redor, péssima companhia, sabêmo-lo todos mas, às vezes, é o preço pelo desafio de querer ter o ar por companhia, o preço da irreverência, um preço com o valor da responsabilidade. Sempre disse que não reconheço o conceito de culpa mas conheço o de responsabilidade, o único que me diz alguma coisa. Ontem ouvia a Helena Roseta dizer sobre Sá Carneiro que era capaz de duas coisas de valor inestimável: a trangressão e a ternura. Ainda na noite de ontem, e ainda mais na manhã de hoje, ao ouvir os românticos no CCB pensava na forma como há quem nos saiba devolver a fé na trangressão e na ternura com a irreverência de um sorriso em cada dia. É desse sorriso que continuo a precisar, da certeza de que ele existe e vai continuar a existir.

(O resto? Bem, vou asneirar porque me apetece muito: "Que se lixe!" E lá dizia a Scarlett crescidinha: "Amanhã é outro dia!" E, seja pior ou melhor, será diferente.)

*
"Leitor indulgente, sincero, vulgar
- alguns tenho: uma esposa, uma freira, um fantasma ou dois -
Se escrevo para alguém, foi para ti que escrevi;
Por isso, quando eu morrer, murmura: 'Éramos tão poucos';
Escreve na pedra (se sabes escrever, eu mal sabia)
Que eu - que eu - mas qualquer coisa serve,
estou satisfeito... Porém -porém éramos muito poucos:
Devia talvez ter escrito para os teus irmãos,
Para os outros, os hipócritas, vulgares, impiedosos?"

Randall Jarrell (1914-1965). In Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios

segunda-feira

Óilhe, o q'rido desculpe, não sei se tá a vêre mas aqui não é o Iraque, p'cébe? (que p'ssidonice, só me faltava agora um "olheiro" da 'nata' a enfiar botifarras sem griffe no "on the rock's")
Vá p'ra Falu... pére, vou ter de esperar pelas notícias da prima Manela e depois acabo de esc'vêre o nome certo. Mas pode ir andando já! (passa-me cada palhaço aqui p'lo balcão...)

*

E porque dias não são noites e nada disto estava previsto, não resisto a deixar aqui um poema de que apenas me recordava muito vagamente mas que uma generosa dose de gargalhadas proporcionada por um post-scriptum do meu bloguer masculino preferido rapidamente ajudou a descobrir. Em italiano e com os cumprimentos da casa na esperança de uma posologia eficaz.

Portami il girasole ch'io lo trapianti
nel mio terreno bruciato dal salino,
e mostri tutto il giorno agli azzurri specchianti
del cielo l'ansietá del suo volto giallino.
Tendono alla chiarità le cose oscure,
si esauriscono i corpi in un fluire
di tinte: queste in musiche. Svanire
é dunque la ventura delle venture.

Portami tu la pianta che conduce
dove sorgono bionde trasparenze
e vapora la vita quale essenza;
portami il girasole impazzito di luce.

Eugenio Montale, Portami il girasole ch'io lo trapianti. In Ossi di Seppia (Mondadori, 1991)

*

Das passagens de ontem por alguns blogs da linha "suplemento feminino" retive ensinamentos vitais. Um deles foi sobre a Yourcenar e o outro sobre a auto-promoção e as estratégias de marketing pessoal. Estava ainda muito contente e bastante inspirada por tal leitura quando voltei a A Rosa de Robert Walser (estava a lê-lo enquanto adiava a preparação da sessão de seminário sobre o positivismo lógico e o relativismo para hoje) e percebi por que razão nem no meio de todo o contentamento conseguira parar de pensar que a humildade é um luxo a que alguns já nem aspiram. Ora, papaias! Se ainda fosse uma pochettezinha Chanel ou uma idazita ao Lux...